quarta-feira, abril 27, 2011

Mistura de religioso com profano...


Festa da Mãe Soberana

A maior festa religiosa do sul do país realiza-se em Loulé numa grande demonstração de fé que anualmente atrai crentes e turistas à cidade.
Para além de um extenso programa religioso, o ponto alto da Festa é o desfile pela cidade e a subida final ao santuário onde milhares de pessoas acompanham a procissão.

Dia 24/04 - Festa Pequena
Dia 08/05 - Festa Grande
Data de início:24-04-2011
Data de fim:08-05-2011
Localidade:Loulé
Organização:Câmara Municipal de Loulé
Contactos:T. 289 400 600
www.cm-loule.pt

terça-feira, abril 26, 2011

Á imagem da Deusa Ataegina































ermo da deusa ategina





Aras de Ataecina en Santa Lucía del Trampal

Altares dedicados a la Dea Sancta Ataecina Turibrigense, sacados en las excavaciones de le ermita visigoda de Santa Lucía del Trampal de Alcuéscar (Cáceres).

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DEA DOMINA SANCTA ADAEGINA Y EL CULTO A LAS AGUAS -I



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Gran parte de los materiales del antiguo templo pagano fueron reutilizados en la construcción de la ermita visigoda







domingo, abril 24, 2011

O DIA DA DESGRAÇA DE PORTUGAL - A TRAIÇÃO!




O processo da traição

Por Amorim de Carvalho (in O Fim Histórico de Portugal, Ed. Prometeu)

Os comunistas e os socialistas portugueses falam dos 229 dias para abater o fascismo em Portugal, desde 9 de Setem­bro de 1973 até ao golpe de estado militar de 25 de Abril de 1974; isto é, desde o dia em que 136 capitães, tenentes e alferes, transportando-se burguesmente nos seus carros e em carros dos seus camaradas, se reuniram secretamente num palheiro de uma rica propriedade rural do Alentejo, pertencente à família de um deles, para falarem das suas reivindicações profissionais, até ao dia em que eles fizeram o golpe de estado. A História falará dos 229 dias da incubação da traição.O golpe de estado de 25 de Abril, a que se chamou o «movimento dos capitães» e finalmente «Movimento das Forças Armadas» («M.F.A.»), começou por um descontentamento de tipo mercenário que abriu brechas na disciplina militar e que, a um certo momento, dada a extensão da indisciplina, procurou revestir-se de uma explicação política conferindo-lhe, aos olhos da nação, uma aparência de honestidade e de significação nacional.

Mostremos, com seus delineamentos de crua clareza, o que não chegou ao conhecimento do povo português e do estrangeiro, senão sob aspectos intencionalmente mal definidos ou muito furtivos ou moralmente disfarçados.

O número de cadetes, frequentando a academia militar donde saíam os oficiais do quadro permanente, diminuía consi­deravelmente, o que criava problemas, dada a existência da guerra no ultramar. A insuficiência de capitães e de oficiais subalternos obrigava o governo português, presidido pelo prof. Marcello Caetano, a recorrer aos oficiais antigos mili­cianos (isto é, quadro complementar) vindos da condição civil (estudantes universitários e alguns tendo mesmo já os seus diplomas de nível superior, os quais já tinham feito o serviço militar, participando na guerra do ultramar com o posto de alferes). Eles tinham sido postos na reserva com o posto de tenentes e, às vezes, de capitães. Estes oficiais milicianos, se quisessem entrar no quadro permanente, frequentavam um curso intensivo de dois anos na academia militar, após o qual eram integrados no quadro permanente como alferes graduados em capitães. Ora, os cadetes da academia militar frequentavam o curso normal de quatro anos que lhes dava o posto de alferes. Havia apesar de tudo um sistema moral de compensações justificáveis; porque o miliciano acabava o curso intensivo lá pelos 25-35 anos, enquanto que o cadete acabava o curso nor­mal por volta dos 20 anos; o miliciano integrado no quadro permanente entrara na academia militar com uma preparação universitária parcial, ou até completa tendo obtido o respectivo diploma, enquanto que o cadete entrara apenas com uma pre­paração liceal; o miliciano já tinha participado na guerra do ultramar e ia participar nela pela segunda vez, enquanto que o cadete, é evidente, não tinha ainda participado na guerra. Mas o que era decisivamente importante, e de uma importância moral inegável, é que a pátria sustentava uma guerra que lhe era imposta, o que justificava medidas transitórias e de circunstância com o fim de suprir a falta de oficiais. Os mili­tares que, após o 25 de Abril e o desastre económico que a sua incompetência provocou, fariam apelo, eles próprios aos sacrifícios da nação, não quiseram compreender as graves circunstâncias especiais relativas ao acesso do miliciano ao quadro permanente. Os militares exigiam, por exemplo, que os oficiais que foram milicianos (e que tinham frequentado a academia militar entre os 25 e os 35 anos), não fossem pro­movidos a capitães, sem que os oficiais vindos dos cadetes (e que terminaram os cursos da academia militar aos 20 anos), não tivessem sido promovidos a capitães. E, falando do «pres­tígio do exército», das «perspectivas finais» de uma carreira militar «atraente» (que os factos demonstraram ser a de um exército que não queria bater-se), os «capitães» punham todo o problema de um modo puramente mercenário: «Pague-se aos capitães que arriscam a vida para que sigam em frente os pro­jectos de Cabora Bassa ou a exploração das minas da Diamang, ao menos metade, do que ganha um engenheiro dessas obras ou dessas minas, o qual apenas corre o risco de que os capitães não achem incentivos [de dinheiro, entendamos] que os levem a arriscar-se, e ver-se-á que, conquanto que a crise de quadros seja muito mais que uma questão de dinheiro [o «prestígio», sem dúvida?], utópico é querer galinha gorda com magra algi­beira» [afinal de contas, trata-se sempre de dinheiro][1]. Esta passagem é tirada de um anexo à circular do movimento dos capitães, datada de 23 de Outubro de 1973, isto é, seis meses antes do putsch de 25 de Abril.

Até àquela data a indisciplina ligada às reivindicações mercenárias tinha-se limitado a ameaçar o governo com a demissão colectiva dos oficiais de todas as graduações e de todas as armas, segundo se lê nos nºs 8 e 11 da circular citada acima de 23 de Outubro de 1973. A ideia de pátria tinha sido posta de lado. Como fazer desta vergonha um caso justificável perante a nação? Só a partir de 24 de Novembro de 1973 é que o tenente-coronel Ataíde Banazol, que devia partir, dentro em pouco, em serviço militar, para a Guiné portuguesa, sugere, numa reunião de capitães, a viragem do comportamento mer­cenário ao comportamento político com a ideia de um golpe de estado. Ele queria que imediatamente se agisse, e apre­sentou mesmo o seu programa que não foi aprovado, mas a ideia da politização espalhou-se lenta e constantemente. A urgência que o bravo (?) soldado punha no assunto «explicava-se pelo facto de o seu Batalhão seguir para Africa antes do fim do ano... Mais tarde, já na Guiné, o tenente-coronel Banazol leva a sua impaciência ao ponto de contactar camaradas do Movimento, no sentido de tomar conta de Bissau e fazer nego­ciações directas com o PAIGC»[2].

Tudo isso mostra, antes de mais, a extensão da indisci­plina dos oficiais do movimento que, não contentes em se oporem à maneira pela qual os milicianos eram integrados no quadro permanente, negociavam segundo a lei da oferta e da procura, em que o comprador era o governo que representava a pátria em guerra, a nação que pagava; e em seguida, mostra o deslizar para a política, enganando os mais ingénuos, através de uma estratégia que, é necessário dizê-lo, não conquistou imediatamente a compreensão de todos os oficiais. O major Sanches Osório, que fez parte do movimento e é hoje um dissidente desiludido e um exilado político, diz no seu livro publicado em Espanha, referindo-se a um momento em que a ideia política estava já lançada, que o major Vítor Alves tinha apresentado um programa que continuava a ser «uma síntese das reivindicações... Devo dizer que este Programa foi recusado... Por várias razões, uma das quais suscitadas por mim… A meu ver não podia limitar-se a propor aumentos salariais ou melhoramentos nas condições sociais [condições sociais dos militares]»[3]. Tratava-se já de uma espécie de obsessão ao nível do homem-massa, no pior sentido desta expressão, que se não poderia fazer aceitar à nação senão através de uma politização. E esta politização não podia deixar de ser a que se opunha ao regime vigente. Se este regime fosse uma democracia pluralista ou um socialismo, tendo por­tanto outro contexto de acção político-social, a indisciplina militar finalizaria na institucionalização do fascismo ou de qual­quer outra forma de regime autoritário.

Mas, voltando à realidade dos factos, é inegável que o pro­cesso da traição desenvolveu-se em duas fases bem delimita­das: o da reivindicação profissional, de 9 de Setembro a 24 de Novembro de 1973, e a da politização, de 24 de Novembro de 1973 a 25 de Abril de 1974. A prova disso está no facto de os oficiais vindos dos milicianos, e nos quais predominavam as ideias esquerdistas, se oporem às reivindicações dos oficiais vindos dos cadetes da academia militar, uns e outros se insultando mutuamente. Os oficiais vindos dos milicianos alertavam a nação («este país... Não poderá permitir a estagna­ção, a oligarquia de uma minoria de interesses ultra-direitas») e pediam para os chefes militares tomarem um atitude de firmeza «para com aqueles que leviana, injustificada, discri­minatória e anti-regulamentarmente estão a minar o moral, a cavar fossos, a cortar amarras, a criar castas no seio de uma família que tem sido unida e que só de o ser, tem permitido que a Barca Nacional corte rectilineamente os desmistifica­dos ventos da história»[4].

Notemos nestes textos que os seus autores, considerados como sendo os mais esquerdistas, baptizam de ultra-direitistas os oficiais vindos dos cadetes e gabam-se de serem os defen­sores do ultramar português! Por outro lado, os «capitães» chamam «capatazes de guerra» aos milicianos, considerando-os como oficiais de qualidade inferior[5], e reivindicam, também os títulos de principais defensores do ultramar!: «Mais do que ninguém em Portugal têm desde a primeira hora do conflito em que a Nação está empenhada, contribuído para a sua perenidade»[6].

Tudo isso pertencia, portanto, à fase da reivindicação pro­fissional desencadeada pelos «capitães», em que a linguagem patriótica parecia ser o mínimo necessário para se manter a decência militar; no entanto, o carácter de tipo mercenário das reivindicações («querer galinha gorda com magra algibeira», «point d'argent, point de suisse») comprometia visivelmente uma linguagem de patriotismo e de «prestígio» das forças armadas, precisamente no momento em que a pátria exigia o sacrifício e a compreensão. O interesse profissional dominou sobre as ideologias políticas, frequentemente as mesmas, das duas partes em conflito.

A politização do movimento dos capitães era, apesar de tudo, a única solução. Praticamente, só foi a partir do mês de Dezembro de 1973 que se começou a orientá-lo «para qualquer coisa de mais vasto, de mais largo do que as simples reivin­dicações profissionais»[7]. Uma vez que este caminho foi seguido, tudo agora vai exibir um aspecto novo. A infiltração dos oficiais esquerdistas, comunistas, socialistas, vai conduzir a indisciplina mercenária do movimento (que levava já, aliás, no seu seio a traição) à mais abominável e vergonhosa traição que a História conhece - para repetir o que já escrevi no capítulo precedente; e é isso que vai conciliar ao nível político, os oficiais milicianos comunistas e esquerdistas e os oficiais do quadro permanente também comunistas e esquerdistas, enquanto que eles se opunham ao nível das reivindicações profissionais. Mas a nação, na sua enorme maioria não é comu­nista e apenas deseja uma democratização segundo o exemplo das nações do mundo ocidental e livre. Mantêm-se portanto certas aparências tácticas através de um plano de mentiras: falar-se-ia ao país e à opinião internacional em termos de uma democracia pluralista (para a parte europeia de Portugal), e de uma autodeterminação descolonizadora (para o ultramar português) que seria sistematicamente falseada.

Após a rejeição do programa redigido, ou praticamente redigido pelo major Vítor Alves, de que já falei, o major Melo Antunes, ligado ao «Movimento Democrático Português» (que se transformou em satélite do «Partido Comunista Português»), e que pretendia o abandono puro e simples do ultramar, sem autodeterminações e sem discussões, redigiu um novo programa - onde interveio uma comissão constituída por oficiais esquer­distas. Lá pelos começos do mês de Abril de 1974, o movi­mento dá conhecimento deste programa aos generais Costa Gomes e António de Spínola que sugerem certas alterações. É necessário dizer que o general Spínola publicara, em 23 de Fevereiro, o seu livro «Portugal e o Futuro», que obteve um enorme sucesso; era aí proposta uma democratização do regime dentro de uma federação ligando Portugal ao seu ultra­mar, após uma autodeterminação que Spínola previa como nos sendo favorável, e este general declarava que a solução das guerras no ultramar era política e de maneira nenhuma militar. Os esquerdistas agarraram-se obstinadamente a esta última afirmação, separando-a do contexto.

Alguns oficiais do movimento, nos quais o sentimento da pátria não se extinguira completamente ou em que este senti­mento pôde despertar no meio de trágicas contradições, preten­deram ver já um programa no livro do General Spínola[8], cuja tese será estudada no capítulo seguinte; havia uma tese, sem dúvida, ou, pelo menos, o livro continha todas as linhas essen­ciais para uma solução digna e de uma grande importância histórica, sobretudo após a situação de facto criada pelo 25 de Abril; mas isso opunha-se aos planos de apropriação do movi­mento dos capitães pelos esquerdistas e comunistas - o que era o essencial para estes, e que estava acima, para estes também, da ideia de pátria. Esta trama desenvolveu-se fora do conhecimento da nação até ao momento em que o movi­mento das forças armadas tomou o poder e tirou a máscara.

Logo após o sucesso do golpe de estado, o movimento delegaria o poder - segundo a letra do programa - a uma «Junta de Salvação Nacional» «para a qual estavam já designa­dos a priori os generais Spínola e Costa Gomes»[9]. Mas era do general Spínola que perante a nação e perante a opinião internacional era considerado como o chefe do movimento triunfante, que os esquerdistas queriam fazer o seu testa de ferro. O prestígio adquirido em África, sobretudo na Guiné portuguesa como governador desta província, durante o governo de Marcello Caetano, o grande sucesso que teve o seu livro («ao fechar o livro dirá mais tarde Marcello Caetano – tinha compreendido que o golpe de Estado militar, cuja marcha eu pressentia há meses, era agora inevitável»), e o próprio facto que até Marcello Caetano recusou transmitir o poder a um homem que não fosse Spínola, julgando que este era, pelo seu inegável patriotismo, o que melhor podia defender a pátria, em perigo, do desastre comunista, - tudo isso indicava o gene­ral Spínola para chefe do movimento.

Mas este esboço do processo da traição não apresentaria todas as suas essenciais linhas, se não se falasse do que se sabe do comportamento destes dois generais durante os meses e os dias que imediatamente precederam o golpe de estado: o comportamento do general Costa Gomes com a ideia precon­cebida da traição (os factos confirmaram-na) que vai até rom­per com o seu maior amigo, o general Spínola; e o comporta­mento deste último general que, pela sua boa fé, pelas suas lamentáveis fraquezas, pela exagerada confiança nele próprio e no seu carisma, julgando-se capaz de dominar e controlar finalmente os acontecimentos, deixou-se apanhar nas armadilhas que outros lhe armaram.

Dois meses antes do golpe de estado de 25 de Abril, o general Spínola reafirmou a Marcello Caetano que era «um militar disciplinado que não participava em conspirações nem dava golpes de Estado»; e o general costa Gomes dizia pessoal­mente a Marcello Caetano que este devia «continuar a fazer o sacrifício de estar no governo». No dia 14 de Março (mês e meio antes do 25 de Abril), o general Costa Gomes aderia, como praticamente todos os oficiais generais que foram pessoalmente prestar fidelidade ao governo, ao princípio que as forças armadas deviam subordinar-se à realização dos objectivos nacionais fixados pelos órgãos que a constituição reconhecia; simplesmente «tinha relutância em vir publica­mente tomar um compromisso em nome das Forças Armadas sem as consultar, muito embora concordando em que o prin­cípio fazia parte da ética militar (mas, argumentava, por isso mesmo não era preciso reafirmá-lo)»; e o general Spínola explicava a sua ausência pela «fidelidade que julgava dever ao seu chefe imediato» que era o general Costa Gomes, chefe do estado-maior general, Spínola sendo o vice-chefe[10].

Ora, desde o dia 5 de Março de 1974, para não citar senão datas incontestáveis ou incontestadas até hoje, Costa Gomes e Spínola estavam já ao corrente do programa do movimento («a partir desta data iniciava-se um vaivém de cópias do pro­grama para os generais Costa Gomes e Spínola, os quais iam propondo alterações, depois discutidas pela Comissão Coorde­nadora do Movimento»)[11]; já no mês de Agosto de 1973 ou nos primeiros dias do mês seguinte (oito meses, mais ou menos, antes do golpe de estado militar), o general Costa Gomes informou Marcello Caetano que ele tomara contacto directo com o movimento dos capitães (nessa altura tratava-se ainda de um movimento de indisciplina mercenária e de reivin­dicações profissionais) e que ele lhes assegurara que «tomaria daí por diante a defesa da causa deles»[12]. Estava-se, ainda longe da politização. E, desde os seus começos, o movimento (tratava-se ainda, repito-o, de uma indisciplina de tipo mercenário de reivindicações profissionais) tinha certamente uma ligação indirecta com Spínola, através de alguns dos seus adeptos que faziam parte do movimento[13].

Todas estas maquinações são repugnantes, ainda que se saiba que o general Spínola, ao contrário do general Costa Gomes, tinha os seus escrúpulos: emitindo a sua opinião sobre as reivindicações profissionais dos capitães, o general Spínola não deixou de lhes dizer «que, embora tivessem razão, eles estavam a ultrapassar os limites da disciplina militar, na medida em que se tinham agrupado como força de pressão da base e até pretendiam formar uma «Ordem de Oficiais» e fomentar uma «Associação de Sargentos». Errado - pensava ele - porque, em vez de se acreditar na capacidade de recuperação da estrutura militar, pretendia-se introduzir um processo de «reivindicação sindical» que desarticularia a instituição»[14]. Era o bom senso.

Chegados à fase final da politização do seu movimento de massa - no sentido mais pejorativo do termo -, politização da qual se pôs em evidência a trama, os capitães teriam hesitado entre o general Costa Gomes, que eles achavam, não sem razão, mais sensível aos seus fins e que era já o seu conselheiro[15], e o general Spínola[16], para escolherem aquele que seria o chefe do movimento; mas, graças ao seu incontes­tável prestígio e finalmente graças ao sucesso que obteve o seu livro «Portugal e o Futuro», a escolha caiu no general Spínola.

Logo que venceu o golpe de estado militar de 25 de Abril, o general Spínola tornou-se presidente da junta de «Salvação Nacional», e também presidente da república.

Proclamou-se aos quatro ventos que as forças armadas tinham deposto, sem um só tiro, o «fascismo» em Portugal. Discutir-se-á, mais adiante, o conceito de fascismo; por agora bastará reter a ideia de que o fascismo é um regime totalitário, portanto um regime ditatorial, que, entre outras características fundamentais, tem a seguinte: o regime fascista é sustentado pela força das armas que adquirem a preponderância política. Pôr-se-á portanto o problema de saber qual era a espécie de fascismo que as forças armadas depuseram em Portugal, que já não dispunha do seguro aparelho militar de que dispõem todos os fascismos, e que começara já há muito tempo a esforçar-se por pôr o exército à margem da política e do governo da nação.

Está fora de dúvida que o totalitarismo fascista, que se definiu em Itália com Mussolini, exerceu uma grande influência, determinando «uma série de movimentos e de regimes que, como precisamente os movimentos e regimes democráticos e comunistas, tiveram um tão grande papel na vida moral, social e política da Europa na primeira metade deste século»[17]. Por­tugal, onde a revolução de 28 de Maio de 1926 instaurou uma ditadura militar, sofreu esta influência durante a administração de Salazar (a criação das forças paramilitares tais como a «Legião» e a «Mocidade Portuguesa» testemunha-a), que se substituiu à «coligação heterogénea, sem programa político preciso» dos vencedores de 1926, cujo «único acordo era o estabelecimento de um poder forte, garante da ordem, apoiando-se no exército»[18]. Mas, por um caso psicológico e paradoxal para um «fascista», Salazar, animado de espírito legalista e cioso do seu poder autoritário pessoal, ainda que tendo apoiado a ditadura nos militares, parecia, ao mesmo tempo, pô-los em segundo plano, pois ele chamava cada vez mais a si a força política pela qual ele se tornava o árbitro de um regime paternalista. Com efeito «a partir da promulgação da Constituição Política de 1933 o Dr. Salazar procurou sempre afastar as Forças Armadas da acção política, embora mantendo um militar na Presidência da República como elemento de con­tacto e como fiador da observância da doutrina do regime»[19]. Esta estratégia era absolutamente oposta aos métodos fascistas (e comunistas) em que a carreira militar, pelo papel que tem na própria defesa dos regimes fascistas (e comunis­tas), não pode deixar de ser materialmente atraente, bem paga. Havia, certamente, uma polícia política, a «Polícia Internacional e de Defesa do Estado», e mais tarde a «D.G.S.», mas em caso de oposição entre a polícia política e o exército, não se pode de maneira nenhuma dizer que este predominava sobre pri­meira. É que Salazar contava com o seu prestígio pessoal. O seu sucessor, o prof. Marcello Caetano, levou ainda mais longe a ideia de se não apoiar o regime paternalista nas forças arma­das. «Fora dolorosa - diz no seu livro - a experiência dos dezasseis primeiros anos do regime republicano com constantes intervenções militares na vida pública sob a forma de golpes de Estado e de revoluções, e os tempos do início da Ditadura não tinham deixado melhores recordações da ingerência dos quartéis na política. Normalizar a vida cívica do País implicava, pois, necessariamente, a redução das Forças Armadas ao seu papel de instrumento ou meio de realização dos objectivos nacionais fixados pelos órgãos a que a Constituição desse competência para o fazer»[20].

Assim, contrariamente ao que se passa nos regimes comu­nistas e nos regimes verdadeiramente fascistas, que não podem subsistir sem a força brutal de um exército ao seu serviço e, por conseguinte, bem paga, em Portugal a carreira militar tinha deixado de ser atraente; pediam-se aos militares sacrifícios pela pátria, mas não se comprava o seu apoio político: «os jovens oficiais (…) vinham começando a não entender muito bem por que lhes eram impostos tantos sacrifícios, por que razão eram obrigados a combater sem discutir, por que eram mal pagos...»[21]. - «O exército já não constituía uma carreira de promoção social». - «Os seus vencimentos pode­riam acaso comparar-se com os ganhos dos fazendeiros, não falando já das grandes companhias (…)?»[22]. - É preciso que o oficial do quadro permanente deixe «de ser abrangido pela denominação de «funcionário público», o que é só para efeitos de vencimento-base, que não para outro tipo de subsídios (vidé ajudas de custo, previdência, horas extraordinárias, etc.)… Há que acarinhar» aqueles a quem «se deve a manutenção do Ultramar»[23]. - «Eis que aparece também agora (felizmente) a classe de sargentos a lutar pela melhoria da sua situação… Há também que resolver urgentemente o grave problema da situação das praças, nomeadamente no que respeita ao seu vencimento (pré) (…) à assistência e previdência social para as mesmas e respectivas famílias»[24], etc.

Todos estes insuspeitáveis textos mostram que a condição de vida ou de morte de um regime fascista (ou comunista), isto é, a existência de um exército bem pago, não existia já em Portugal, e o governo português tinha-a descurado ao ponto de provocar as reivindicações profissionais donde saiu o golpe de estado. O próprio carácter militar deste golpe de estado confirma-o. Em 25 de Abril de 1974 não havia portanto fascismo em Portugal; o que havia, era um regime que continuava a ser paternalista e não se liberalizava, não se democratizava até ao pluralismo dos partidos por medo ao partido comunista que, por ideologia, é anti-democrático e anti-liberal: «Liberalização? -sempre expliquei - diz o jurista Marcello Caetano no seu livro - que a um professor de Direito Público não podia deixar de se impor a ideia de governar com respeito das justas liberda­des dos indivíduos e dos grupos» mas «entre quantos reclamam liberdades figuram muitos que as não querem senão para terem aberto o caminho do poder totalitário que logo as suprimirá»[25]. Os factos confirmaram-no. Pode-se admitir a abertura das insti­tuições democráticas aos partidos comunistas (e, pelas mes­mas razões, aos partidos fascistas) nos países em que os princípios democráticos e de liberdade estão de tal maneira enraizados na consciência da maioria, que os comunistas (e os fascistas) apenas podem ter um papel de crítica, provavel­mente útil e fecundo se se tratar de uma critica no bom sentido da palavra. Quando esta condição não se verifica, a primeira condição para instaurar uma democracia é a de afastar da jovem democracia as forças políticas que apenas se servi­riam dela para a destruir. Claro que ao dizer tudo isto, serei apelidado de fascista pelos comunistas (talvez, também, de comunista, pelos fascistas), mas são slogans que pertencem a um certo nível de embrutecimento que caracteriza a crise actual do pensamento ocidental[26].

Se o governo do professor Salazar se mantinha graças ao seu extraordinário prestígio pessoal, apesar de todas as críticas de que foi alvo, se ele estava politicamente acima de um exército cada vez mais afastado do poder político, mas que, no entanto, defendia o regime em razão do grande prestígio do professor de Coimbra, - o governo de Marcello Caetano manteve-se pelo medo que a maioria da nação tinha do futuro, em face de uma oposição muito dominada, ou que parecia muito dominada, pelo esquerdismo. Mas não deixemos de acentuar que a maioria acreditava na probidade governativa de Marcello Caetano, mesmo quando não se estava de acordo com a sua política. Assim, nas eleições de 1968 (deputados), o governo de Marcello Caetano obteve uma inegável vitória, reconhecida mesmo por pessoas responsáveis da oposição que fizera uma campanha eleitoral abertamente esquerdista e contra a guerra do ultramar[27].

Não quero, de maneira nenhuma, dizer que certas pers­pectivas de mudança política não galvanizaram a nação, quando essas perspectivas lhe pareciam uma democratização e não um deslize para o comunismo e o abandono sem dignidade do ultramar; os dois casos mais característicos foram a campanha eleitoral em favor da candidatura do general Humberto Delgado à presidência da república (1958) e o entusiasmo dos primeiros dias que se seguiram ao golpe de estado de 25 de Abril, quando a nação acreditava ainda na honestidade democrática do movi­mento, o que quero dizer e pôr em evidência, é que o «fascis­mo» português dos primeiros anos atenuara-se, moderara-se progressivamente (sob as influências do pensamento democrá­tico revivificado após a segunda grande guerra), solidificando-se num paternalismo autoritário que, ao mesmo tempo, se esforçava por não precisar do apoio comprado das forças armadas habi­tuadas, em Portugal, aos golpes de estado.

Esta política seria um beco sem saída se não se fizesse apelo ao sufrágio democrático, substituindo e afastando o flagelo dos governos e dos regimes militares. Marcello Caetano fez apelo ao sufrágio; mas havia ainda uma contradição entre este apelo ao sufrágio (o de 1968 deu-lhe uma extraordinária vitória, já se disse) e o não reconhecimento do pluralismo de partidos. De qualquer maneira, a administração de Marcello Caetano levava já nela uma democratização potencial, ou, mais exactamente, o sentido de uma solução democrática, e anti-mili­tarista, - portanto, de maneira nenhuma fascista, se não se quiser deformar os conceitos[28]. Os espíritos superficiais e facciosos falam, para explicar a facilidade do golpe de estado de 25 de Abril, de um estado fascista «apodrecido»[29], em vez de falarem de um processo evolutivo que afastara esse estado, cada vez mais, do fascismo. O que estava podre, e tragica­mente podre, era o exército; foi por isso que ele não soube nem quis apoiar a solução democrática de que Marcello Cae­tano teve medo. É por isso, ainda, que, tendo transformado um movimento de tipo mercenário num golpe de estado político, as forças armadas enganaram a nação; porque, apresentando-lhe um programa democrático aberto a todos os partidos e a toda a discussão de ideias, ainda que tendo suas lacunas e seus subterfúgios, as forças armadas nada fizeram democratica­mente; tudo foi feito demagogicamente, como em todos os fascismos ou em todos os comunismos. Aliás o programa «pres­tava-se a ser interpretado de diferentes maneiras»; e quando o professor Palma Carlos (chefe do primeiro governo provisório) pediu que se lhe explicasse o sentido da «estratégia antimono­polista» inscrita no programa (uns entendiam-na no sentido neocapitalista, e os outros prestavam-lhe um matiz comunista), ninguém lho soube explicar claramente[30]. Tratava-se de uma ambiguidade intencional ou de ausência de ideias precisas? Um ponto que os militares golpistas desejavam era o de não se permitir partidos políticos, mas somente associações ou movimentos políticos que, mais tarde, poderiam dar origem a partidos. «Este ponto, aliás, é muito claro no Programa»[31]; adivinha-se, aí, a ideia de manter as forças armadas como árbitro permanente da situação política militarista. No que diz respeito à imprensa, à rádio, à televisão, ao teatro e ao cinema, o programa põe-nos sob controle das forças armadas, criando uma comissão ad hoc para impedir e punir (o que se fez, indo até à suspensão ou supressão de jornais) a «agressão ideoló­gica», isto é, toda a crítica perturbando a opinião pública, isto é, oposta aos militares e, por conseguinte proveniente (assim se decretava) «dos meios mais reaccionários». O programa, que­rendo parecer democrático, está, no seu conjunto, mal elabo­rado, cheio de lugares comuns, de enunciados intencionalmente vagos ou incompletos, e demagógicos, de uma esperteza saloia que denuncia bem o fim de fazer dos militares-parasitas os únicos amos e os principais exploradores da nação e dos trabalhadores explorados num regime totalitário. Mas, sem expe­riência política e sem cultura política, não puderam libertar-se dos partidos (naturalmente dos partidos de esquerda que visavam o totalitarismo) e, então, por sua vez, os militares foram os joguetes destes partidos e das suas rivalidades.

Tudo foi traído: o programa e a nação, a democracia (onde o programa a afirmava), e a pátria (onde a letra parecia patriótica). Durante alguns meses, o general Spínola foi a espe­rança dos portugueses e dos democratas mais sinceros; mas, colocado neste pandemónio ao mesmo tempo trágico, grotesco e carnavalesco, o general chegou ao ponto de sancionar o que ele próprio não queria, contra todas as teses do seu livro «Portugal e o Futuro», até ao momento extremo em que teve que se demitir de presidente da república.

O general Spínola perdeu, assim, o carisma no qual ele próprio demasiadamente confiara; mas teve no meio de toda esta tragédia, o seu momento mais alto, que fez estremecer de emoção ai maioria da nação, quando pronunciou o discurso da sua demissão, referindo-se à «maioria silenciosa» que o apoiava. Será que ele é capaz de recuperar o prestígio perdido e colaborar com os melhores portugueses capazes de salvar o que se possa ainda salvar?

Em todo este processo de traição conduzindo ao 25 de Abril e às suas consequências, é necessário distinguir os militares que bem tiveram consciência da traição cometida; os que se deixaram enganar pelas palavras; e os que, sem qualquer con­vicção política, teriam continuado a olhar sobretudo os seus interesses ligados a um regime militar graças ao qual teriam acesso aos postos principais. A ingenuidade, a fraqueza de carácter e a estupidez de uns, fizeram com que eles fossem pastoreados pela ambição e a astúcia dos outros. Mas a His­tória inexorável julgará a todos segundo as suas responsabili­dades e dirá quem, entre eles, valerá mais.

Acabo de esboçar a trama complexa de uma traição, sem apresentar todos os detalhes de uma minuciosa investigação de historiador, mas coloquei em evidência os aspectos morais essenciais que se quer esconder em Portugal e que a opinião pública internacional ignora.

Os factos, propriamente políticos, que dizem respeito à mudança do regime em Portugal, e ao abandono (e sem digni­dade) do ultramar português com as populações brancas que o fizeram, interpenetram-se; mas foi este último que deu o golpe decisivo na existência histórica de Portugal. Entendo por exis­tência histórica de um país a sua realidade efectiva na His­tória, com a contribuição que este país deu ou dá à cultura e à civilização. Considerando a dialéctica massa-elite (cap. I) no plano das nações, direi que uma nação de existência his­tórica é uma nação-elite, contrariamente às nações-massas às quais falta relevo suficiente e significação especial na História. Não quero dizer que uma nação-massa não possui necessaria­mente homens-elite capazes de contribuir para o progresso da cultura e da civilização do mundo; mas sem homens-elites que façam valer certas circunstâncias favoráveis, nenhuma atingirá, jamais, o nível de uma existência histórica de nação-elite. A minha pátria, que tinha uma existência histórica, feita e man­tida pela vontade, apenas, dos seus heróis e dos seus grandes homens, foi destruída, ao fim de quase mil anos, pela vontade dos seus pequenos homens, um bando de traidores - os mili­tares de um exército podre, que se recusaram a defendê-la e fizeram o jogo dos seus inimigos.

A História mostra-nos que há factos que são verdadeiras catástrofes nacionais pela sua repercussão psicológica e inte­lectual nas populações dos países atingidos. Trata-se de um traumatismo colectivo resultando de um desnivelamento abrupto, absurdo, irracional (ou tido como tal) entre o que era e o que é, qualquer coisa como uma demissão histórica. A queda da Gré­cia e a queda de Roma, estas duas admiráveis nações-elites, são os dois mais notáveis e irreparáveis casos da história antiga; a dupla queda da Alemanha, após as duas grandes guer­ras, é um dos exemplos da história contemporânea; a Alema­nha, aliás, dolorosamente e relativamente recuperada, perma­nece dividida em dois estados. Devo também citar um exemplo muito particular: o de Israel, que sofreu duas catástrofes nacio­nais, as duas diásporas: a do cativeiro em Babilónia (597-538 a. C.) e a da queda de Jerusalém (70 d. C.)[32]. O caso parti­cular destas duas perdas de existência histórica como estado, é que Israel subsistiu (como povo judeu - ainda que disperso, fragmentado - por causa da força religiosa que, desde as suas origens, cimentara o estado) e sobreviveu a estas duas catástrofes. Daí surgiu o sionismo, movimento para a restauração de um estado judaico, que foi finalmente criado em 1947 (estado de Israel)[33].

As causas destas catástrofes nacionais podem portanto ser de diferentes naturezas, de diferentes extensões e profun­didades, as consequências variando, umas reversíveis e outras irreversíveis; cada nação terá a sua catástrofe, que é a perda da sua existência histórica, no quadro de um conjunto de ele­mentos étnicos, históricos, geográficos, etc., que explicavam a sua existência como nação e estado político.

A existência histórica de Portugal começou com os des­cobrimentos e manteve-se pela colonização, bem caracteristi­camente portuguesa, do ultramar (cap. III). Não se quer dizer que esta existência histórica terminaria, mais ou menos, tarde, com a independência das províncias portuguesas, no fim do processo normal da colonização. Já falei de uma autodescolo­nização no próprio seio da colonização portuguesa, da qual tor­narei a falar no capítulo seguinte. A independência do Brasil, antiga colónia portuguesa, não foi, de maneira nenhuma, para Portugal, uma catástrofe. Foi uma autodescolonização. Com suas incontestáveis repercussões económicas, criando problemas, ela tinha toda a lógica, toda a racionalidade do que, nos começos do capítulo III, falando do conceito de pátria, considerei como a transferência do conceito-sentimento de pátria, pelo qual os portugueses criavam um novo Portugal, um segundo Portugal, e pelo qual Portugal, do ponto de vista ampliado da sua cul­tura, da sua civilização e da sua missão cultural e civilizadora, se prolongava e se revia na própria independência do Brasil. O recente estabelecimento de uma cidadania luso-brasileira reconhecida pelas duas constituições do Brasil e de Portugal (antes, claro, do golpe de 25 de Abril), prova-o de maneira notá­vel: os portugueses no Brasil tendo os mesmos direitos e deveres que os cidadãos brasileiros, reciprocamente, os bra­sileiros em Portugal têm os mesmos direitos e deveres que os cidadãos portugueses. Não sei se haverá caso idêntico na his­tória das outras nações. Pode-se verdadeiramente falar de uma comunidade da língua e da cultura portuguesa, transatlântica.

A traição do movimento das forças armadas, que fez o 25 de Abril, impediu, para as províncias portuguesas de África, a continuação deste espírito especificamente português bem marcado pela sua colonização autodescolonizadora.

Os militares do golpe de estado, e os seus cúmplices ou comparsas comunistas e socialistas, divulgaram, em Portugal e no estrangeiro, que a guerra no Ultramar estava perdida, e para sustentarem essa horrível mentira, invocaram até o general António de Spínola. É falso: o general Spínola nunca escreveu tal coisa. Num dos seus livros publicado em 1972, escreveu: «Numa guerra deste tipo de guerrilha, as forças da ordem ganham-na se a não perderem, assim como a subversão a perde se a não ganhar», e alguns meses antes do golpe de estado, no seu livro «Portugal e o Futuro», escreveu: «Às For­ças Armadas apenas compete, pois, criar e conservar pelo período necessário - naturalmente não muito longo - as con­dições de segurança que permitirão soluções político-sociais, únicas susceptíveis de pôr termo ao conflito». A verdade é que nas vésperas do golpe de 25 de Abril de 1974, isto é, «no dia 24 de Abril de 1974, o terrorismo em Angola parecia definiti­vamente esmagado. A F.N.L.A. - que sucedeu à U.P.A. de sinis­tra memória - agonizava em pequenos redutos montanhosos do Congo, abandonada pela população, vivendo de abastecimentos e municiamentos que à custa de dificuldades sem conta o Zaire lhe fazia chegar às mãos. No Leste, pouco povoado, fugindo à animosidade da população local e às forças do exército, a U.N.I.T.A. [outro movimento terrorista] arrastava-se de flo­resta para floresta mercê do auxílio que recebia da Zâmbia. O M.P.L.A. [um terceiro movimento terrorista, comunista] tinha umas centenas - a custo uns escassos milhares - de simpa­tizantes na cintura industrial de Luanda.

Angola era, então, um grande país, pacífico, próspero e muito rico, em que as populações de todas as cores e etnias confiavam firmemente nas forças armadas a que tinha sido entregue a sua defesa.

Logo após o 25 de Abril, porém, as fronteiras foram fran­queadas ao inimigo, os europeus e movimentos que lhes eram afectos foram desarmados, e permitida a livre entrada de tro­pas e armas para os movimentos terroristas ao mesmo tempo que se determinava, unilateralmente, um cessar fogo que, no dizer de um dos mais proeminentes vultos do movimento, cor­respondia a renunciar a ganhar a paz aceitando perder a guerra.

Nessa altura a F.N.L.A. passou a ser abertamente abaste­cida e municiada pelo Zaire, pelos Estados Unidos e pela China, a U.N.I.T.A. pela Zâmbia e pela China. O M.P.L.A. - comu­nista - passou a ser abastecido pelas forças armadas portu­guesas e pelos países comunistas»[34].

Tudo se passou ao mesmo nível de traição na Guiné portu­guesa e em Moçambique, e, de uma maneira mais discreta, ainda que com a mesma significação no plano moral, em Cabo Verde e em Timor[35], como em S. Tomé e Príncipe (territórios onde nem sequer havia guerra).

Reduzindo abruptamente Portugal a um pequeno território da Península Ibérica, arrancando-lhe o mundo geográfico da sua missão cultural e civilizadora, os militares traidores provoca­ram o traumatismo nacional da sua demissão histórica, o fim da sua existência histórica, em duas palavras; o fim histórico de Portugal.

Vários partidos políticos portugueses associaram-se plena­mente a esta traição: os partidos comunistas e o partido socia­lista. Eles devem ser devidamente estigmatizados. Outros par­tidos, praticamente calaram-se perante esta traição: devem ser também devidamente chamados ao julgamento da História.

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DESDE 25 DE ABRIL DE 1974, CHORAMOS LÁGRIMAS DE SANGUE



Notas:

[1] No original francês: «Traduz-se livremente o provérbio português: «querer galinha gorda com magra algibeira», que corresponde à locução: «point d’argente, point de suisse», – locução que vem das tropas mercenárias suíças, no tempo em que os governos estrangeiros as obtinham pagando-as com dinheiro».

[2] Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril (Lisboa, Moraes, 1975), p.332-n.

[3] Sanches Osório, El engaño del 25 de Abril en Portugal (Madrid, Sedmay Ediciones, 1975), p. 23.

[4] Documentos difundidos no mês de Julho de 1973

[5] Anexo à circular de 23 de Outubro de 1973

[6] Exposição dos capitães da Guiné portuguesa, datada de 28 de Agosto de 1973 e dirigida ao presidente da república (Américo Tomás), ao presidente do conselho (Marcello Caetano) e a outros membros do governo. A palavra «perenidade», no texto, refere-se, para ter um sentido, à palavra «Nação» e não a «conflito». Os actuais militares portugueses vindos dos cadetes da academia militar, não sabem, em geral, escrever.

[7] Vid. entrevista de Otelo Saraiva de Carvalho in «Expresso» (Lisboa, 27 de Julho de 1974).

[8] Sanches Osório, ibid., pág. 25.

[9] Id., ibid., pág. 50.

[10] Marcello Caetano, Depoimento (Rio de Janeiro - São Paulo, Record, 1974), pág. 202.

[11] A. Rodrigues, C. Borga, M. Cardoso, O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril (Lisboa, Moraes, 1975), pág. 19.

[12] Marcello Caetano, Depoimento (Rio de Janeiro - São Paulo, Record, 1974), p. 187. - O livro do prof. Marcello Caetano, do qual eu tiro estas notas, respira a verdade dos factos e a honestidade. Rara­mente um vencido escreveu um depoimento tão sereno como o do prof. Marcello Caetano; não contém uma única palavra onde trans­pareça ódio contra os seus adversários; a palavra mais dura que aí se pode encontrar é a que se refere ao secretário-geral do partido socialista português: era «um apagado advogado… Mário Soares, de seu nome, não representava grande coisa no País - salvo a influência das forças estrangeiras que o manobravam». Depoimento é um livro cheio de interesse histórico escrito por um verdadeiro português e patriota: não se o pode negar, se se quiser ser honesto, mesmo que não se esteja de acordo com as ideias políticas do seu autor.

[13] A. Rodrigues e outros, ibid., p. 269. - Este livro é perfeita­mente favorável ao movimento reivindicativo dos capitães, mas o que importa são a exactidão das datas e a objectividade dos factos para uma interpretação objectiva.

[14] A. Rodrigues e outros, ibid., pág. 273.

[15] Id., ibid., pág. 274.

[16] Id., ibid., pp. 333-4.

[17] Renzo De Felice, Comprendre le Fascisme, trad. do italiano por Marc Baudouy (Paris, Seghers, 1975), pág. 25.

[18] Albert-Alain Bourdon, Histoire du Portugal (Paris, P.U.F., 1970), pág. 116.

[19] Marcello Caetano, ibid., p. 202.

[20] Marcello Caetano, ibid., p. 202.

[21] A. Rodriguese outros, ibid., pp. 306-7.

[22] Id., ibid., p. 349.,

[23] Exposição-tipo elaborada, em 1973, por vários oficiais e que foi assinada e apresentada por centenas de oficiais.

[24] Circular do movimento (Outubro de 1973) não difundida por razões estratégicas (A. Rodrigues e outros, ibid., pp. 325-6).

[25] Marcello Caetano, ibid., p. 69.

[26] «…O termo fascista foi utilizado duma maneira cada vez mais geral e sem discriminação. Foi utilizado para descrever o único regime de tipo fascista saído indemne da guerra, o regime franquista em Espanha… Mas também foi utilizado para definir o regime de Salazar em Portugal e o de Peron na Argentina… Come­çou-se a falar de um renascer do fascismo após 1958 e a vinda, de novo, ao poder de De Gaulle em França… Durante a guerra fria, mas mais recentemente ainda, o movimento comunista, os Soviéticos e os Chineses qualificaram como fascista mais do que um aspecto da polí­tica dos Estados Unidos e dos seus aliados. Numerosos são os que também apelidaram de fascistas certos governos, especialmente da América latina, que, no entanto, seguiam mais o exemplo do conser­vantismo tradicional e que, além disso, participavam da experiência his­tórica particular destas regiões. O mesmo se dirá do regime dos coronéis e dos generais na Grécia. Os Chineses, por sua vez, falaram recente­mente da União Soviética como de um Estado «social-fascista»… Neste clima, nasceu a exigência - científica e prática -, proveniente de vários lados, desde há alguns anos, não apenas de pôr fim a este uso indiscri­minado e deformante do adjectivo fascista (houve mesmo quem propu­sesse, paradoxalmente que se o banisse pelo menos temporariamente do nosso vocabulário), mas também de procurar estabelecer definitiva­mente o que se deve entender por fascismo…». - Renzo De Felice, Comprendre le Fascisme, trad. do italiano por Marc Baudouy,Paris, Seghers, 1975), pp. 16-8.

[27] «Nos meus papéis havia fotocópias de declarações espontanea­mente redigidas e assinadas pelos representantes das listas de oposição em certas assembleias a congratular-se com a forma correcta como tudo tinha decorrido. Lembro-me de que uma dessas declarações tem a assinatura do Prof. Lindley Sintra... Conversei nos dias que se seguiram à eleição com vários elementos da oposição: todos reconhe­ceram a vitória do governo e que o acto eleitoral havia sido o mais correcto de quantos, até aí, haviam visto em Portugal sob qualquer regime» (Marcello Caetano, ibid., pp. 60-1). Das eleições de 1973, as últimas que se realizaram sob a administração de Marcello Caetano, é inútil falar, porque a oposição desistiu, no último momento, de ir às urnas.

[28] O regime deposto não deixou nunca de fazer a corte aos intelectuais da oposição que, sem abdicarem das suas ideias, não se mostraram insensíveis. Os escritores José Régio, Miguel Torga, Domingos Monteiro, Armindo Rodrigues, Tomás de Figueiredo e Fidelino de Figueiredo não recusaram os prémios literários que o jornal considerado «fascista» «Diário de Notícias», abertamente salazarista e, depois, marcellista, lhes atribuiu. Fidelino de Figueiredo foi mesmo condecorado pelo governo. Os escritores Domingos Monteiro, Sofia de Melo Breyner e David Mourão-Ferreira (este teve mesmo uma situação de relevo na rádio nacional) receberam prémios literários do secre­tariado nacional de informação («S.N.I.») que dependia directamente da presidência do conselho do Regime deposto. Creio que nunca se viram tais casos num regime fascista.

[29] A. Rodrigues e outros, ibid., p. 15.

[30] Sanches Osório, El Engano del 25 de Abril en Portugal (Madrid, Sedmay Ediciones, 1975), p. 53.

[31] Id., ibid., p. 53.

[32] A nação judaica teve uma existência histórica incontestável no seu mundo semítico, levando-lhe a elaboração monoteísta perfeita de um Deus pessoal e criador, com enormes consequências morais, sociais e políticas. O cristianismo introduziu e manteve este mono­teísmo semítico no mundo ocidental, o que, de uma certa maneira, actualiza e confirma a importância da existência histórica que teve a nação judaica.

[33] A ignorância deste facto psico-histórico pode fazer valer, no seio da «O.N.U.» (organização em que as palavras dominam os con­ceitos), a tese de que o sionismo é um racismo e que, por conseguinte, Israel deve ser expulso da «O.N.U.» (onde o racismo não seria admi­tido). Ora, o sionismo não põe nenhuma relação de discriminação racial agressiva, nem mesmo desdenhosa, entre o povo judeu e os outros; ele apenas põe uma relação interna entre a sua etnia e a sua religião, e que foi, precisamente, uma resposta defensiva aos racismos de que o povo judeu foi vítima através dos tempos. A campanha anti­-sionista, levantada na «O.N.U.», ignorando a especificidade histórica do facto judaico, e pretendendo isolar Israel, é um novo aspecto do racismo anti-semita. - Estará o sionismo fora de toda a crítica? De maneira nenhuma.

[34] A longa transcrição que fiz, é um texto tirado do «Jornal Português de Economia & Finanças» (Lisboa, 1-15 de Outubro de 1975). Esta notável publicação, muito bem informada, dirigida por A. Valdez dos Santos, é uma leitura obrigatória para todos os que se interessam pela história do desmoronamento de Portugal, e que procuram um juízo corajoso e sério dos factos; isto já levou esta revista a ter sido suspensa e condenada a uma pesada multa por «agressão ideológica» contra as forças armadas.

[35] No momento em que estou a escrever estas linhas, tudo se precipita na província de Timor. - O governo português apoiara deci­didamente o movimento comunista minoritário formado em Timor, opondo-se à «U.D.T.» (que defendia uma ligação com a mãe-pátria). O governo provincial acabou por abandonar um território que estava ainda debaixo da soberania portuguesa, deixando atrás de si a guerra civil. Os traidores e os covardes que fizeram o 25 de Abril já conse­guiram ver a Indonésia ocupar o Timor português.

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sábado, abril 23, 2011

Conistorgis - O Cantinho dos Deuses

Conistorgis - O Cantinho dos Deuses

FRÉYA, DEUSA DO AMOR E DA SEXUALIDADE.


Os europeus do norte chamaram sua Deusa sensual de Fréya, que 
significa "concubina" e deram seu nome para o sexto dia da semana, a Sexta-feira, ou "Friday". Ela era a regente ancestral dos deuses mais velhos, ou Vanir e irmã de Fricka.
Fréya era a mais bela e querida entre todas as Deusas, que na Alemanha era identificada com Frigga. Ela nasceu em Vaneheim, também era conhecida como Vana, a Deusa dos Vanes, ou como Vanebride.
Quando Fréya chegou a Asgard, os Deuses caíram apaixonados por sua beleza e elegância que lhe concederam o reino de Folkvang e o Grande Palácio de Sessrymnir, onde a Deusa podia acomodar todos os seus admiradores e os espíritos dos guerreiros mortos nas batalhas.
Fréya era filha de Njörd (Deus do Mar) e da giganta Skadi (Senhora dos Invernos e Caçadora das Montanhas). Tinha como irmão Freyr, que era o deus da paz e da prosperidade. Pertencia a raça dos Vanes.
Fréya e Frigga são consideradas dois aspectos da Grande Deusa.
Fréya é o aspecto donzela e Frigga o aspecto materno.



AS UNIÕES DE FRÉYA.
Fréya por ser tão bonita, despertou o amor de Deuses, Gigantes e Gnomos e todos tiveram a sua vez, para tentar obtê-la como esposa. Porém, Fréya desdenhou os feios Gigantes, e inclusive rechaçou a Thrym quando Loki e Thor a obrigaram a aceitá-lo como marido. Entretanto, não era tão inflexível quando tratava-se dos Deuses, pois como personificação da Terra, desposou: Odin (o Céu), Freyr (o irmão que representa a chuva fertilizante), Odur (a luz do Sol), entre outros.
Teve muitos maridos e amantes, que aparentemente mereceu as acusações de Loki de ser muito volúvel, pois havia amado e casado com muitos Deuses.



O COLAR MÁGICO E O MANTO
Como Deusa da Beleza, Fréya, igual a todas as mulheres, era apaixonada por vestidos e jóias preciosas. Um dia, enquanto se encontrava em Svartalfrein, o reino debaixo da terra, viu quatro gnomos fabricando um belo colar. Quando a Deusa o viu pela primeira vez, decidiu que deveria ser seu, mas os gnomos não o queriam vender. No entanto, eles a presenteariam com o colar se ela passasse uma noite com cada um deles. Sem hesitar, Freya concordou e tornou-se proprietária de Brinsingamen (colar), um poderoso equilíbrio da Serpente Midgard e um símbolo de fertilidade. Tais atributos correspondem à Lua Cheia.
O colar mágico que Freya usava foi obra dos artesões conhecidos como Brisings: Allfrigg, Dvalin, Berling e Grerr.
A inveja e a cobiça de Odin por tal jóia e pelo meio através do qual Fréya a obteve o levou a ordenar ao deus gigante Loki que roubasse o colar. Para recuperá-lo, Fréya deveria concordar com uma obscura ordem de Odin: deveria incitar a guerra entre reis e grandes exércitos para depois reencarnar os guerreiros mortos para que lutassem novamente.
Fréya também era orgulhosa proprietária de um manto de plumas de falcão. Quando Fréya aparecia envolta em seu manto de plumas de falcão e não usando nada a não ser seu colar mágico de âmbar, ninguém podia resistir a ela. O manto de penas, lhe permitia voar entre os mundos. Já o colar mágico da Deusa, tinha o dom de fazer desaparecer os sentimentos dolorosos. Este colar se rompeu uma vez, segundo uma lenda, por ira da Deusa ao tomar conhecimento de que um gigante havia roubado o martelo de Thor e pedia sua mão para devolver a arma do Deus do Trovão.



AAINHA DAS VALQUÍRIAS.
Com o nome de Valfreya comandava as Valquírias nos campos de batalha, reclamando para si, metade dos heróis mortos. Era representada portando escudo e lança, estando somente a metade inferior de seu corpo vestida com o atavio solto habitual das mulheres.
Fréya transportava os mortos eleitos até Folkvang, onde ram devidamente agasalhados. Ali eram bem-vindas também, todas as donzelas puras e as esposas dos chefes, para que pudessem desfrutar da companhia de seus amantes e esposos depois da morte.
Os encantos e prazeres de sua morada eram tão encantadores e sedutores que as as mulheres nórdicas, as vezes, corriam para o meio da batalha quando seus amados eram mortos, com a esperança de terem a mesma sorte, ou deixavam-se cair sobre suas espadas, ou ainda, ardiam voluntariamente na mesma pira funerária em que queimavam os restos de seus amados.
Muito embora, Fréya seja regente da morte, Rainha das Valquírias, as condutoras das almas dos mortos em combate, ela não era uma Deusa atemorizadora, pois sua essência era o poder do amor e da sexualidade, embelezando e enriquecendo a vida. Ela era ainda, a única que cultivava as maçãs douradas de que se alimentavam os deuses lhes conferindo a graça da juventude eterna.
Como acreditava-se que Fréya escutava a oração dos apaixonados, esses sempre a invocavam e era costume compor canções de amor em sua honra, as quais eram cantadas em ocasiões festivas. Na Alemanha, seu nome era usado com o significado do verbo "cortejar".
Este aspecto da Deusa, também conhecida como líder das Valquírias, a conecta à Lua Nova.



DEUSA-XAMÃ.
É considerada ainda, a Deusa da magia e da adivinhação. Ela era quem iniciava os deuses na arte da magia.
A magia de Freya era xamanística por natureza, como indica seu vestido ou manto de pele de falcão, que permitia que se transformasse em um pássaro, viajasse para qualquer dos mundos e retornasse com profecias. A Deusa, aliás, emprestou a Loki a sua plumagem de falcão para que ele fosse libertar Idunn, a Deusa Guardiã da Maçã da Juventude, raptada pelo gigante Thjazi, metamorfoseado em águia.
Os xamãs atuais julgam tal habilidade de efetuar viagens astrais como necessárias para a previsão do futuro e para obter sabedoria. Entre os nórdicos, esta habilidade presenteada por Freya, era chamada Seidhr.


ENCANTAMENTO SEIDHR.

Seidhr era uma forma mística de magia, transe e adivinhação primariamente feminina. Apesar da tradição rezar que as runas teriam se originado de Freya, e que fossem utilizadas por suas sacerdotisas, a maior parte de Seidhr envolvia a prática de transmutação, viagem do corpo astral através dos Nove Mundos, magia sexual, cura, maldição e outras técnicas. Suas praticantes chamadas Volvas ou às vezes Seidkona, eram sacerdotisas de Freya. Enquanto uma volva entrava em transe, outras sacerdotisas entoavam canções especiais, chamadas "galdr". Era o uso do canto conjugado com a repetição de poesias que era criado o estado alterado de consciência.
As volvas podiam inclusive entrar em contato com elfos e duendes. Eram consultadas pelo povo sobre todos os tipos de problemas.
As Volvas moviam-se livremente de um clã ao outro. Elas não costumavam se casar, apesar de possuírem muitos amantes. Essas mulheres portavam cajados com uma ponteira de bronze e usavam capas, capuzes e luvas de pele de animais.
As mulheres pareciam ser as únicas praticantes do Seidhr de Freya, pois esse era um ritual-erótico reservado as mulheres. Isso implica que esse prática datasse provavelmente de época anterior à formação dos dogmas paternalistas e, portanto, sem dúvida, de antes da androcratização dos mitos (os anos, divindades da Fertilidade e da Proteção, são sobreviventes dessa época).
Entretanto, existem vestígios em poemas e prosas de que Seidhr fosse também praticado por homens vestidos com roupas de mulheres. Odin, por exemplo, é a única deidade masculina listada nos mitos a ter praticado este tipo de magia, como iniciado de Freya. Vestir-se com roupas de sexo oposto é uma tradição realmente antiga que tem suas raízes na crença de que um homem deve espiritualmente transformar-se em uma mulher para servir a Deusa.


FRÉYA E ODUR.

Fréya, como personificação da Terra, casou-se com Odur, o símbolo do Sol de verão, a quem ela amava muito e com o qual teve duas filhas: Hnoss e Gersimi. Essas donzelas eram tão formosas que todas as coisas belas eram batizadas com seus nomes.
Enquanto Odur permaneceu ao seu lado, Fréya sempre estava sorridente e era completamente feliz. Porém, cansado da vida sedentária, Odur abandonou seu lar subitamente e se dedicou a vagar pelo mundo. Fréya, triste e abandonada, chorou copiosamente e suas lágrimas caiam sobre as pedras abrandando-as. Se dizia inclusive, que chegaram a introduzir-se no centro das pedras, onde se transformavam em ouro. Outras lágrimas cairam no mar e foram transformadas em âmbar.
Cansada da sua condição de viúva de marido vivo e desejosa de ter Odur novemente em seus braços, Fréya resolveu empreender finalmente sua busca, atravessando terras, ficou conhecida por diferentes nome como Mardel ("Luz sobre o Mar"), Horn ("Mulher linho"), Gefn ("A Generosa"), Syr ("A Porca"), Skialf e Thrung, interrogando a todos que se encontravam a um passo, sobre o paradeiro de seu marido e derramando tantas lágrimas que em toda a parte o ouro era visto sobre a Terra.
Muito longe, ao sul, Fréya encontrou finalmente Odur, debaixo de uma florescente laranjeira, árvore prometida aos apaixonados.
De mãos dadas, Odur e Fréya empreenderam o caminho de volta para casa e à luz de tanta felicidade, as ervas cresceram verdes, as flores brotaram, os pássaros cantaram, pois toda a natureza era simpatizante com a alegria de Fréya como se afligia quando se encontrava triste.
As mais belas plantas e flores do Norte eram chamadas de cabelos de Fréya, as gotas de orvalho de olho de Fréya. Também dizia-se que a Deusa tinha um afeto especial pelas fadas, gostava de observá-las quando dançavam à luz da Lua e para elas reservava as mais delicadas flores e o mais doce dos mel.
Odur, o marido de Fréya, era considerado a personificação do Sol e também um símbolo da paixão e dos embriagantes prazeres do amor, por isso, esse povo antigo, declarava que não era de estranhar que sua esposa não conseguira ser feliz sem ele,
Esta Deusa era também, protetora do matrimônio e dos recém-nascidos.
DEUSA DA FERTILIDADE E DOS GATOS
Fréya, Deusa da Fertilidade, da Guerra e da Riqueza, viveu em Folkvang (campo de batalha) e possuía a habilidade de voar, o que fazia com uma charrete puxada por dois gatos brancos: Bygul (cabeça de ouro) e Trjegul (árvore do âmbar dourado). Após servirem a Deusa por 7 anos, eles foram recompensados sendo transformados em bruxas, disfarçadas em gatos pretos.
Os gatos eram os animais favoritos da Deusa Fréya,considerados símbolos de carinho e sensualidade, ou da personificação da fertilidade.
Freya é portanto, uma Deusa associada aos gatos, tal qual a egípcia Bast e à grega Àrtemis Além disso, tinha poderes de se transmutar e era a Sábia que inspirou toda a poesia sagrada. Mulheres sábias, videntes, senhoras das runas e curandeiras estavam intimamente conectadas com Freya, pois só ela era a Deusa da magia, bruxaria e dos assuntos amorosos.
Algumas vezes, foi representada conduzindo junto com o irmão Freyr uma carruagem conduzida por uma javali de cerdas de ouro, espalhando, com suas mãos pródigas, frutas e flores para alegrar os corações da humanidade.




FRÉYA, A DEUSA-JAVALI.

Como Deusa da Batalha, Fréya montava um javali chamado de Hildisvín. O sobrenome de Fréya era "Syr", que significa "porca".
O javali tem associações especiais dentro da mitologia nórdica. Como Deusa-Javali, ou Deusa-Porca Fréya está associada entre os nórdicos como entre os germanos e os celtas, a práticas sexuais proibidas (em particular o incesto entre irmão e irmã, representado pelo par Freyr-Fréya), muitas vezes ligadas às celebrações da primavera e da renovação: durante essa cerimônia realizava-se o acasalamento ritual de um sacerdote com uma sacerdotisa, considerados como o Senhor Freyr e a Senhora Fréya. Esse rito sexual, do qual existia uma equivalência entre os celtas, sobreviveu, principalmente na Inglaterra, na forma, muito atenuada, de coroar um rei e uma rainha de Mai (a tradição dos mais, dos trimazos ou da árvore de mai, corrente na França ainda há não muito tempo, teve origem semelhante).
O javali era também o animal sagrado de Freyr, o Deus fálico da Fertilidade e era sacrificado à ele como oferenda no ano novo, de modo a garantir prosperidade nos doze meses seguintes. Daí surgiu o costume, que chegou até nossos dias, de comermos carne de porco na virada do ano.
O costume da cabeça de javali ou porco na mesa de Natal, com uma maçã à boca, também remonta diretamente aos ritos consagrados a Freyr. Sacrificava-se a ele um porco ou javali por ocasião do "Feöblot" ("sacrifício a Freyr"), que se realizava durante o "Jul" (ciclo de doze dias no solstício de inverno), porque o Deus tinha como atributo um javali de cerdas de ouro, chamado Gullinbursti, o qual também lhe servia, ocasionalmente, de montaria.
O javali, na mitologia celta, é símbolo do poder espiritual inacessível e foi perseguido por Artur, que representava o poder temporal e guerreiro.
A HISTÓRIA DE FRÉYA E OTTAR.
Os nórdicos não só invocavam Fréya para obter êxito no amor, prosperidade e crescimento, mas sim também, em certas ocasiões, para obter ajuda e proteção. Ela concedia à todos que a serviam fielmente, como aparece na história de Ottar e Angantyr, dois homens que, após discutirem durante algum tempo direitos de propriedade, expuseram sua disputa ante os Deuses. A assembléia popular decretou que o homem que pudesse provar a descendência de estirpe mais nobre e mais extensa, seria declarado vencedor, sendo designado um dia especial para ser investigada a genealogia de cada demandante.
Ottar, incapaz de recordar o nome de seus antepassados, ofereceu sacrifício a Fréya, rogando por sua ajuda. A Deusa escutou indulgentemente sua oração e, aparecendo diante dele, o transformou em um javali e sobre o seu lombo cavalgou até a morada da feiticeira Hyndla, uma célebre bruxa. Com ameaças e súplicas, Fréya exigiu que a anciã traçasse a genealogia de Ottar até Odin e nomeasse cada indivíduo por seu nome, com o resumo de suas façanhas. Então, temendo pela memória de seu devoto, Fréya também exigiu a Hundla que preparasse uma poção de recordação, a qual deu a ele para beber.
Assim preparada, Ottar apresentou-se ante a assembléia no dia marcado e com facilidade recitou sua linhagem, nominado os muitos mais antepassados de que Angantyr pode recordar, por isso foi facilmente recompensado com a garantia de posse da propriedade em questão.
DEUSA-LÍDER DAS DISIR.
Dentro das tradições dos antigos povos nórdicos, a Deusa Fréya era uma das líderes dentro do matriarcado das Deusas, o que lhe rendia vários cultos, principalmente na Suécia e na Noruega, onde era venerada como a "Grande Dis".
O Disirblot, era um festival celebrado anualmente no início de inverno nórdico em honra a Deusa Fréya e as Disir. Durante a comemoração era servido cerveja, porco, maçãs e cevada.
Todos os festivais nórdicos eram denominados de "blots" e contava com o comparecimento de toda a comunidade.
Seu culto tinha caráter erótico e orgiástico, associado sempre com a luxúria, o amor e a beleza.
As ancestrais femininas Disir eram descritas como nove mulheres vestidas de preto ou branco, carregando espadas. Nove é um número lunar e é considerado pelos nórdicos como um dos mais misteriosos e sagrados números. As Disir estão também associadas as Valquírias e as Norns. Elas traziam sorte, mas também eram famosas por suas adivinhações, principalmente quando envolvia justiça cármica.
Conectar-se com as Disir é muito eficaz para aumento de auto-estima e poder pessoal. Todos os rituais de invocação dessas sacerdotisas devem ser realizados na lua cheia.
Os templos dedicados a Deusa Fréya eram muito numerosos e foram mantidos durante muito tempo por seus devotos, o último em Magdeburgo, na Alemanha, foi destruído por ordem do Imperador Carlos Magno.
CULTO À FREYA.
Era costume serem realizadas ocasiões solenes ou festivais para beber e honrar a Deusa Fréya junto com outros Deuses, mas com o advento do cristianismo se introduziu no Norte, iguais comemorações foram transladadas para a Virgem ou a Santa Gerturdes. A mesma Fréya, como todas as divindades pagãs, foi declarada como demônio ou uma bruxa e desterrada aos picos das montanhas norueguesas, suecas e alemãs. Como a andorinha, o cuco e o gato era umm animais sagrados para Fréya nos tempos pagãos, acreditou-se que essas criaturas tinham qualidades demoníacas,e inclusive nos dias atuais se representa as bruxas com gatos pretos ao seu lado.
ARQUÉTIPO DA TERRA
FRÉYA como arquétipo da Terra é a "Mãe Escura" que através de seu útero cria todas as coisas vivas. Já na qualidade de "Mãe Terrível", ela devora tudo que nasce de volta para o seu ventre.
Seu útero de morte é um estômago devorador de carne humana, o escuro abismo de tudo que vive. É o sangue do guerreiro que a alimenta e é por isso, que a Deusa exige oferendas de sangue vivo para ser saciada.
Os instintos de agressão e sexualidade, o amor e a morte, estão todos inseparavelmente unidos a Deusa Fréya. Isso porque, a fecundidade dos seres vivos está baseada no instinto que os impele ao sexo, mas toda a vida também depende do alimento e esse, do ato de dominar e devorar a presa.
De igual forma, a psique humana, quando projeta-se para o inconsciente, encontrará nele a unidade de um útero escuro (a terra interior), no qual criaturas se devoram e se geram. A terra está viva dentro do inconsciente do homem e é a Grande Mãe, em oposição ao princípio masculino patriarcal.
O simbolismo matriarcal é perigosamente pagão aos olhos do patriarcado, pois a terra foi amaldiçoada como sendo a quintessência do mal, pelo mundo patriarcal, dominado pelo Céu. O patriarcado despedaçou a humanidade, tornando-a uma parte superior e outra inferior, não deixando margem para reconciliação entre ambas.
A visão patriarcal tentou varrer de volta para o útero (inconsciente), todo o elemento titânico do mundo matriarcal e acredita que teria vencido esse dragão colocando o pé sobre sua cabeça. Entretanto, mesmo assim a humanidade seguiu matando e assassinando, entregue ao próprio inconsciente, encontrando desculpas e justificativas sagradas para tais feitos. Dessa vez, não foram as Deusas, mas sim o Deus único e Todo-Poderoso que exigiu essas ações. As guerras travadas nesses casos, foram então consideradas guerras santas.
A grande verdade é que não necessitamos de ilusões enganadoras para percebermos os instintos agressivos de dentro de nós. O correto é não culpar Deusas ou Deus e reconhecermos essa força impulsionadora em nós como algo esmagador, que ainda não foi descoberta a cura, mas que é uma doença, que nada tem a ver com "sagrada".
A submissão à escuridão, a aceitação dos aspectos negativos de "anima" (princípios femininos) e "animus" (princípios masculinos), a sensibilidade e o instinto perante à natureza e a assimilação do inconsciente no sentido da integração da personalidade, são algumas das expressões mais significativas para o desenvolvimento psíquico do homem atual.
A nossa Terra Interior é antes de tudo, uma Terra criativa, que não apenas produz e engole a vida, mas que também transforma, porque permite que tudo aquilo que morreu seja ressuscitado e trás para o exterior o mais elevado.F.P.Wikepédia.